O que você precisa saber
O Banco Central manteve a Selic em 13,75% na quarta-feira (4/11), por unanimidade, e interrompeu cinco cortes seguidos. O comunicado cita o ambiente externo mais adverso e a inflação acima do teto da meta, e não indica o que o Copom fará em dezembro.
O Banco Central (BC) manteve a Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira (4/11), por unanimidade, e interrompeu o ciclo de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto percentual iniciado em março de 2026, quando a taxa estava em 15%. A decisão foi do Comitê de Política Monetária (Copom), com sete diretores votando pela manutenção, entre eles o presidente do BC, Gabriel Galípolo. A maior parte do mercado financeiro já esperava a pausa.
É a primeira reunião do Copom depois da vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. No comunicado, o Copom afirmou que o ambiente externo se tornou “mais adverso”, em razão do prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, da pressão sobre o petróleo e de juros mais altos nas economias avançadas.
Depois da eleição, o mercado reagiu com alta do dólar e aumento do risco fiscal. De acordo com O Globo, o dólar acumulou alta de 9% na semana passada. O Valor Investe informou que esse movimento levou a maioria dos agentes a apostar na manutenção da Selic.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, resumiu o quadro em análise citada pelo Valor Investe: “Temos o câmbio volátil na casa dos R$ 5,40, o El Niño pressionando alimentos, serviços resilientes, petróleo acima de US$ 110 no exterior e a incerteza fiscal influenciando o prêmio de risco”. Para Luiz Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, ouvido pelo O Globo, “venceu o bom senso de não fazer marola em um momento de muita volatilidade nos mercados brasileiros”.
Inflação e atividade: o que pesou na decisão
No comunicado, o Copom avaliou que a inflação cheia, que inclui todos os preços, e a média das medidas subjacentes, que excluem os mais voláteis, aceleraram e ficaram acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou 4,58% em 12 meses até setembro, e a alta mensal naquele mês foi de 0,82%. A meta é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que dá um intervalo de 1,5% a 4,5%, e o índice voltou a estourar o teto.
No Boletim Focus, levantamento com projeções do mercado, as expectativas para 2026 e 2027 subiram para 5,2% e 4,8%, distanciando-se da meta de 3%. A projeção do próprio BC para o segundo trimestre de 2028, o chamado horizonte relevante, período em que as decisões levam em conta a trajetória esperada da inflação, subiu para 3,5% no cenário de referência. O Copom afirmou que a decisão é “compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”.
Em análise citada pelo Valor Investe, Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, observa que as revisões não se limitam a 2026. A projeção para 2029 avançou 48 pontos-base, a maior variação entre os quatro anos, “sinalizando um processo claro de desancoragem”, isto é, expectativas se afastando da meta.
A atividade, por sua vez, desacelerou de forma mais acentuada, sobretudo nos setores cíclicos, enquanto o mercado de trabalho segue resiliente, com sinais de desaquecimento na margem. Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, disse ao O Globo que o Copom deixou claro que os efeitos sobre a atividade estão bem mais substanciais do que na reunião passada. Na avaliação dele, “o que sobrepôs mesmo foi a questão da inflação”.
Marianna Costa, economista da corretora Mirae Asset, também vê mudança de postura no BC. “Embora a atividade esteja desacelerando, a deterioração das expectativas e da dinâmica inflacionária exige a manutenção de uma postura restritiva”, afirmou, em análise citada pelo Valor Investe.
“O BC não quis sinalizar nada pra frente, ficou um pouco em aberto. Mas, ao mesmo tempo, a gente entende que ele botou uma barra alta, por exemplo, para elevar a taxa, quando diz no comunicado que os juros estão substancialmente contracionistas.”
Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú, em entrevista citada pelo O Globo
A decisão não traz pistas sobre a reunião de dezembro
O comunicado não antecipa qualquer sinal sobre o que o Copom fará na reunião de 8 e 9 de dezembro, e manutenção, corte ou alta seguem em aberto. Segundo o Valor Investe, a Suno Research projeta cortes só a partir de março de 2027, e a Mirae Asset vê a Selic mantida ao menos até o fim do primeiro trimestre de 2027.
O que muda para quem tem crédito ou investe
De acordo com a IstoÉ, com a Selic em 13,75% o crédito segue caro para famílias e empresas. Já as aplicações atreladas à Selic e ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), como determinados CDBs e títulos públicos, continuam com rentabilidade elevada.
A Selic funciona como referência para as taxas, mas quem define os juros cobrados de cada cliente são os bancos, explicou a IstoÉ. O rendimento líquido de uma aplicação depende ainda de impostos e do prazo escolhido pelo investidor.
Ainda não se sabe quando o BC voltará a cortar juros, nem quais medidas fiscais o novo governo adotará para as contas públicas. A única previsão para a retomada dos cortes vem de analistas, como a Suno Research, que aponta março de 2027.
O próximo dado de inflação é o IPCA de outubro, que será divulgado em 12 de novembro, de acordo com a IstoÉ. Depois vem a reunião do Copom nos dias 8 e 9 de dezembro, a última de 2026.
Perguntas frequentes
A Selic vai cair em dezembro?
O comunicado do Copom não indica se a Selic será mantida, cortada ou elevada na reunião de 8 e 9 de dezembro. A Suno Research projeta a taxa em 13,75% em dezembro e janeiro, com cortes voltando só em março de 2027.
Qual é a meta de inflação do Brasil?
A meta é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que dá um intervalo de 1,5% a 4,5%. O IPCA acumulado em 12 meses até setembro foi de 4,58%, acima do teto.
Fontes consultadas (9)
- Copom interrompe sequência de cortes e mantém Selic em 13,75% ao ano (metropoles.com)
- BC interrompe ciclo de cortes na Selic e mantém taxa básica de juros em 13,75% ao ano (oglobo.globo.com)
- Copom interrompe cortes e mantém Selic em 13,75% ao ano (valorinveste.globo.com)
- Copom interrompe ciclo de cortes e mantém Selic em 13,75% ao ano; mercado acompanha sinais sobre inflação e contas públicas | Rede MRio (redemrio.com.br)
- Copom interrompe cortes e mantém Selic a 13,75%; Brasil tem a maior taxa real de juros do mundo (cartacapital.com.br)
- Copom mantém Selic em 13,75% ao ano e interrompe sequência de cortes nos juros; o que muda (dci.com.br)
- Selic em 13,75%: veja como a decisão do BC afeta seu bolso (istoe.com.br)
- Banco Central mantém Selic em 13,75% e interrompe ciclo de cortes (brasil247.com)
- Copom mantém taxa Selic em 13,75% ao ano diante de incertezas externas e pressões inflacionárias - Brasil Inovador (brasilinovador.com.br)

