O que você precisa saber
O Copom manteve a Selic em 13,75% nesta semana. Em março de 2026, o rotativo do cartão estava em 428,3% ao ano, e o cheque especial, em 137,9%, segundo o Banco Central. Para o colunista Pedro Fernando Nery, reduzir a Selic não reduz necessariamente esses juros.
O Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), e a decisão reacendeu a discussão sobre os juros cobrados de quem usa cartão e cheque especial. Dados do Banco Central de março de 2026 mostram que o rotativo do cartão de crédito chegou a 428,3% ao ano e o cheque especial, a 137,9%. A distância entre essas taxas e a Selic ajuda a explicar por que o tema voltou ao debate.
Por que a Selic não define sozinha o juro do cartão
O colunista Pedro Fernando Nery, do Estadão, escreveu em coluna de opinião que reduzir a Selic não necessariamente reduz os juros cobrados em empréstimos no mercado. Para ele, medidas voltadas ao spread bancário, a diferença entre o custo de captação do banco e o que ele cobra do tomador, teriam talvez mais efeito. Ele lembra ainda que as taxas dos títulos públicos nem sempre acompanham a Selic na mesma proporção, porque dependem também da percepção de risco dos investidores sobre a capacidade do governo de honrar suas dívidas.
O que uma dívida de R$ 800 vira em um ano
Em um exemplo feito pelo R7 com a taxa média divulgada pelo Banco Central, uma dívida de R$ 800 no rotativo do cartão, mantida por um ano sem pagamento, pode chegar a R$ 4.226,40. No cheque especial, a mesma dívida saltaria para R$ 1.903,20. São projeções anualizadas, que nem sempre se efetivam, já que o consumidor costuma ficar no rotativo por apenas alguns dias ou semanas.
Os dados de março também mostram recuo em relação a fevereiro. Segundo o R7, o rotativo passou de 435,9% para 428,3% ao ano, uma queda de 7,6 pontos percentuais e um dos menores valores em quase dois anos. O cheque especial caiu 8,4 pontos percentuais no mesmo intervalo, para 137,9% ao ano.
O teto de 100% do rotativo e a leitura do Banco Central
Em dezembro de 2023, o Conselho Monetário Nacional determinou, em cumprimento a lei aprovada pelo Congresso, um limite de 100% para os juros do rotativo do cartão. O exemplo citado pelo R7 é o de uma dívida de R$ 200 que não pode passar de R$ 400 com juros e encargos. Segundo o R7, a taxa de 428,3% ao ano é um registro estatístico, e não uma prova de descumprimento do teto. O chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central disse que a instituição manterá a série, porque ela serve de referência para medir oscilações dos juros.
“Essa decisão do Banco Central é uma decisão política, não é uma decisão técnica correta. Então vamos lutar pela redução da taxa de juros no Brasil”
Jandira Feghali, deputada federal (PCdoB-RJ), em fala citada pelo Hora do Povo, sem local informado
Dois diagnósticos diferentes para os juros
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) cita os juros do cartão, do cheque especial e da compra parcelada entre os exemplos de juros altos. Em publicação nas redes sociais, ela afirmou que a Selic alta não funciona mais. Também disse que o juro aumenta a dívida pública e tira mais de R$ 1 trilhão do orçamento, sem detalhar como chegou a esse valor. Nery trata do mecanismo de formação dos juros, enquanto a fala de Feghali é uma crítica política à decisão do Copom.
Do lado de quem deve, a Recovery, empresa que negocia dívidas, estima que ao menos 19 milhões de brasileiros tinham dívidas no cartão de crédito em 2025, um recuo de 2% em relação a 2024. A estimativa usa a carteira da própria empresa, com 34 milhões de brasileiros com dívidas administradas, e não representa todo o mercado. As dívidas ligadas a empréstimos e cheque especial passaram de 12,7 milhões para 13,5 milhões de registros no mesmo ano. Segundo a empresa, 77% das negociações feitas por ela acontecem em canais digitais.
Os dados mais recentes de juros disponíveis são de março de 2026, e até esta sexta-feira (6) o Banco Central não havia divulgado valores posteriores para cartão, cheque especial e consignado. Também não se sabe onde nem quando Jandira Feghali fez as falas citadas, e a fonte não explica como ela chegou ao valor de mais de R$ 1 trilhão. Enquanto a série não for atualizada, o número de referência para essas linhas continua sendo o de março.
Perguntas frequentes
Quanto custa o consignado em comparação com o cartão?
Em março de 2026, o consignado tinha média geral de 28% ao ano, com 24% para o INSS, 23,7% para servidores públicos e 56,8% para trabalhadores do setor privado. No mesmo mês, o rotativo do cartão estava em 428,3% ao ano, segundo dados do Banco Central reproduzidos pelo R7.
Fontes consultadas (4)
- Opinião | Cartão, cheque especial e empréstimo: por que a taxa cobrada do brasileiro não acompanha a Selic (estadao.com.br)
- Juros do cartão de crédito caem e chegam a 428,3% em março, aponta Banco Central (noticias.r7.com)
- Cartão de crédito, empréstimo e cheque especial: veja as modalidades com maior volume de dívidas no país | G1 (g1.globo.com)
- “Selic alta não dá mais. Juros altos estão sufocando o país”, afirma Jandira (horadopovo.com.br)



