Morador da zona rural de Carauari, no interior do Amazonas, Francisco Solivan Peres de Araújo carrega uma história de perda e luta. Ele perdeu a mãe durante o parto de sua irmã, uma tragédia que, segundo ele, poderia ter sido evitada com um atendimento médico adequado. “Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”, relembra.
A realidade de Carauari é marcada pela imensa distância entre a zona rural e urbana, o que pode levar horas ou até dias para o deslocamento. O município, que possui mais de 25,7 mil km², é um dos maiores do Brasil, cercado pela Floresta Amazônica e banhado pelo sinuoso Rio Juruá. O trajeto até a cidade, onde existem estruturas de saúde, depende da época do ano e do tipo de embarcação disponível.
Desafios da saúde na região
Nos últimos dez dias, a reportagem da Agência Brasil esteve em uma expedição nas comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, que abriga 31 comunidades e mais de 409 famílias que dependem do extrativismo e da agricultura familiar. Durante a visita, foram ouvidas histórias trágicas que poderiam ter tido um desfecho diferente se políticas públicas de saúde tivessem sido implementadas mais cedo.
O sistema de lanchas de resgate, instalado na década de 90, trouxe alguma melhoria, mas ainda há muitos relatos de demora no atendimento. Adriana da Silva e Silva, por exemplo, sofreu sequelas após ser picada por uma cobra em janeiro de 2019. O resgate demorou mais de 24 horas e, apesar de ter conseguido salvar a perna, ela enfrenta dificuldades até hoje.
Raimundo Viana da Cunha, que também perdeu um irmão devido à falta de atendimento nos anos 90, relembra como a situação era crítica. “Dependíamos de regatão para conseguir atendimento, e muitas vezes não havia barcos disponíveis. Meu irmão esperou uma semana doente sem conseguir ajuda”, afirma.
Uma solução em busca de apoio
Atualmente, a prefeitura de Carauari tenta oferecer resgates por lanchas, mas isso custa entre R$ 40 mil e R$ 45 mil por mês. O secretário de saúde, Manoel Brito, reconhece a dificuldade em instalar unidades básicas de saúde nas comunidades devido ao orçamento limitado do município, que tem cerca de 28 mil habitantes.
O Ministério da Saúde também reconhece a importância das organizações da sociedade civil e busca aumentar os investimentos para atender as populações ribeirinhas e outras comunidades em áreas de difícil acesso.
Opinião
A realidade de Carauari é um reflexo das dificuldades enfrentadas por muitas comunidades ribeirinhas no Brasil. A falta de acesso à saúde é um problema que precisa ser urgentemente abordado para evitar mais tragédias.





