O cheiro da morte ainda paira no ar sob o calor sufocante da costa caribenha da Venezuela, onde famílias desalojadas dormem em beliches instalados em salas de aula adaptadas. Três semanas após dois terremotos atingirem o Estado de La Guaira, a busca frenética por sobreviventes deu lugar a uma realidade sombria: sepultar os mortos, cuidar de milhares de desabrigados e reconstruir comunidades devastadas.
No cemitério La Esperanza, fileiras de cruzes brancas recém-pintadas se estendem por uma encosta empoeirada. O número oficial de mortos já supera 4.800, incluindo mais de 300 vítimas cuja identidade permanece desconhecida. As autoridades coletaram amostras de DNA de todos os corpos, na esperança de que as famílias consigam identificar e recuperar seus parentes.
Dos 19.861 sobreviventes registrados em La Guaira, muitos foram resgatados por moradores locais antes da chegada da ajuda internacional. As equipes organizadas realizaram 6.461 resgates, mas cerca de 83% ocorreram nas primeiras 48 horas após os terremotos, antes que a ajuda oficial chegasse. A resposta do governo foi criticada por demorar a atingir sua capacidade plena, mobilizando apenas 13% do efetivo máximo nas primeiras 24 horas.
Enquanto isso, o governo da Venezuela, apoiado pelos EUA, se prepara para a reconstrução, identificando terrenos para construir “cidades antissísmicas” e entregando 200 apartamentos de reposição em Caracas. No entanto, a frustração com a resposta oficial é palpável, com muitos familiares ainda buscando por desaparecidos e pedindo doações para alugar máquinas pesadas para escavar os escombros.
As altas temperaturas e a superlotação dos abrigos aumentam as preocupações com doenças, enquanto organizações humanitárias tentam evitar uma segunda emergência. Mais de US$ 781 milhões em ajuda foram prometidos por 133 doadores, mas até o momento, nenhum dos compromissos financeiros foi confirmado como efetivamente pago.
Uma avaliação da ONU estimou em US$ 6,7 bilhões os danos físicos diretos causados pelos terremotos. Organizações humanitárias alertam que a fase mais difícil pode estar por vir, pois o apoio financeiro tende a diminuir após o término das operações de busca e resgate.
Opinião
A resposta lenta do governo da Venezuela após os terremotos levanta questionamentos sobre a eficácia da gestão em crises e a necessidade urgente de apoio contínuo às vítimas.





