De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor provocada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. Este montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025. O crescimento dos gastos dos brasileiros com plataformas eletrônicas durante esse período superou R$ 30 bilhões por mês, comprometendo a renda disponível para o pagamento de dívidas e levando cerca de 270 mil famílias a uma situação de “inadimplência severa”.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que 80,4% das famílias estão endividadas no Brasil, um aumento significativo em relação aos 78% registrados no final de 2022. Entre 2019 e 2022, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.
Impacto das apostas
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que a tendência é que, em períodos de aperto financeiro, gastos não essenciais e até essenciais sejam sacrificados. “Podem deixar de trocar de celular ou comprar uma peça de vestuário por causa do agravamento da sua dívida”, exemplifica Bentes.
Os impactos das apostas sobre o endividamento variam conforme o grupo demográfico. Homens, famílias de baixa renda (até 5 salários mínimos), pessoas mais velhas (35 anos ou mais) e aquelas com maior escolaridade (2º grau ou mais) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas. Mesmo famílias com renda superior não estão imunes, desviando recursos para as bets e, consequentemente, deixando de honrar compromissos financeiros.
Políticas públicas e regulação
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas de apostas e proteção ao consumidor. Em nota, ele destacou que o impacto das apostas já se tornou macroeconômico, comprometendo a renda das famílias brasileiras. “Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras”, afirmou Tadros.
Notificações e contestações
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de aposta eletrônica que operam legalmente no Brasil, enviou notificação formal à CNC cobrando “transparência metodológica” e acesso integral às bases de dados utilizadas pela entidade. O IBJR considera as conclusões da CNC alarmistas e em desacordo com as métricas oficiais.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os números apresentados pela CNC, afirmando que estes não condizem com os dados oficiais do governo e do setor, e desconsideram a natureza multifatorial do endividamento no Brasil.
Opinião
A questão das apostas e seu impacto no endividamento familiar é complexa e merece uma análise cuidadosa, considerando tanto os dados apresentados quanto as diversas realidades econômicas enfrentadas pelas famílias brasileiras.





