O mercado brasileiro de games movimentou cerca de 12,7 bilhões de reais em 2025, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior, segundo estimativas do setor. Esse crescimento chama atenção por um motivo específico: acontece em um ambiente onde apenas uma pequena fração dos estúdios tem acesso a fundos de venture capital, e a maior parte do capital que movimenta o setor ainda vem de recursos próprios dos fundadores.
Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais, observa nesse contraste um sinal relevante para quem avalia oportunidades de investimento no setor de tecnologia. “O mercado de games no Brasil já provou que consegue crescer de forma consistente, mesmo sem o tipo de capital que costuma acompanhar setores de tecnologia considerados mais tradicionais. Isso diz muito sobre a maturidade que o setor já alcançou operacionalmente”, diz o empresário.
Crescimento em meio à dificuldade de financiamento
A maior parte dos estúdios brasileiros de games opera hoje como microempresa, formalizada, mas com faturamento relativamente modesto se comparado ao volume total do setor. Ainda assim, o número de estúdios ativos no país passou de mil nos últimos anos, e a receita conjunta do setor segue crescendo ano após ano, mesmo com a maioria das empresas dependendo de recursos próprios, familiares ou de amigos para financiar operação e crescimento.
Richard Lucas da Silva Miranda destaca que esse tipo de tração orgânica, construída sem depender de aporte externo desde o início, costuma ser vista com bons olhos por investidores em outros setores de tecnologia, mas ainda recebe pouca atenção quando o setor em questão é games. “Empresas que sobrevivem e crescem sem depender de capital externo geralmente já resolveram parte do problema mais difícil, que é provar que existe demanda real para o que estão construindo”, afirma.
O gargalo do acesso ao capital
Apenas uma fração dos estúdios brasileiros de games tem hoje acesso a fundos de venture capital estruturados, o que contrasta com o ritmo de crescimento do setor como um todo. Esse gargalo tem explicações específicas: fundos generalistas de tecnologia frequentemente não têm expertise para avaliar projetos de entretenimento digital, enquanto fundos especializados em games ainda são escassos no cenário brasileiro em comparação a mercados como Estados Unidos e Europa.
Para Richard Lucas da Silva Miranda, essa lacuna de expertise específica cria uma barreira maior do que a falta de interesse por parte de investidores. Fundos que não têm capacidade de avaliar risco técnico e potencial de mercado de um jogo específico tendem a evitar o setor, mesmo quando o histórico de crescimento da indústria como um todo já é público e consistente.
Parcerias como solução
Diante da dificuldade de acesso direto a fundos de investimento, parte dos estúdios brasileiros de games encontra em parcerias com publishers uma forma alternativa de viabilizar projetos sem depender exclusivamente de aporte financeiro externo. A LT Studios atua nesse espaço, oferecendo suporte estratégico em distribuição e posicionamento de mercado para projetos de terceiros, o que reduz parte do investimento que o estúdio menor precisaria fazer sozinho para lançar um jogo com qualidade competitiva.
Richard Lucas da Silva Miranda vê esse modelo de parceria como uma resposta prática à lacuna de capital no setor, ainda que não substitua completamente o papel de um investimento financeiro direto. “Uma publisher bem estruturada resolve parte do problema de capital ao assumir custos e riscos de distribuição que o estúdio menor não teria como bancar sozinho”, explica.
Oportunidade no setor de games
O contraste entre crescimento consistente e acesso limitado a capital de risco costuma ser interpretado, em outros setores de tecnologia, como sinal de oportunidade represada, não como sinal de fragilidade. Richard Lucas da Silva Miranda acredita que o mesmo raciocínio deveria valer para o setor de games brasileiro, especialmente considerando que boa parte dos estúdios já demonstrou capacidade de crescer e se manter no mercado sem depender de aporte externo desde o início.
Para investidores dispostos a desenvolver a expertise específica necessária para avaliar esse tipo de negócio, o executivo acredita que o setor de games brasileiro ainda representa um espaço pouco explorado dentro do universo mais amplo de startups e empresas de tecnologia do país.
Opinião
A crescente demanda por jogos no Brasil, mesmo com a escassez de capital, demonstra a resiliência do setor e a necessidade urgente de novas estratégias de investimento.





