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MPF e Caixa Econômica desvendam contas de alforria de 723.419 escravizados

MPF e Caixa Econômica desvendam contas de alforria de 723.419 escravizados

Um capítulo importante da história brasileira está sendo desvendado. O Ministério Público Federal (MPF) investiga registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19, sugerindo que os valores podem ser quantificados e restituídos aos descendentes. A hipótese é que o dinheiro depositado em contas da Caixa Econômica Federal foi poupado para pagar a alforria de pessoas escravizadas até a abolição da escravidão, ocorrida em 1888.

Naquele momento, existiam no Brasil 723.419 pessoas escravizadas, conforme contabilizava a Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Até agora, o MPF identificou 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no acervo histórico da Caixa. Para ampliar essa pesquisa, o MPF solicitou informações detalhadas à Caixa sobre os registros financeiros de escravizados.

Documentos em Extensão

Os livros de conta corrente da Caixa ainda contêm a remuneração dos juros, que eram de 6% a cada 6 meses. A papelada a ser investigada não diz respeito apenas ao século 19, mas à história completa do banco. Se dispostos lado a lado, os documentos para triagem se estendem por 15 quilômetros, uma medida 3,6 vezes maior que o icônico calçadão da Praia de Copacabana.

A historiadora Keila Grinberg destaca a importância de organizar, digitalizar e criar instrumentos de busca para que pesquisadores e a população possam consultar esses dados. O objetivo é romper com sigilos históricos e promover a transparência sobre a segregação racial no Brasil.

O Fundo Nacional de Emancipação

O fundo nacional de emancipação, previsto na Lei do Ventre Livre de 1871, tinha como finalidade auxiliar os escravizados na conquista da liberdade. Contudo, acabou sendo apropriado por fazendeiros para financiar a importação de mão de obra europeia. Em 1889, o fundo guardava a quantia de 12.622:308$776, mas desapareceu nos anos iniciais da República.

O historiador Itan Cruz Ramos critica a falta de atenção ao passado escravista do Brasil, que é frequentemente ocultado. Ele ressalta que a estrutura das relações raciais no Brasil ainda perpetua um silêncio sobre a realidade da escravidão e a luta por direitos do povo negro.

Opinião

É essencial que o Brasil enfrente seu passado escravista e busque reparações justas, promovendo a igualdade e a verdade histórica.