O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e essa realidade impacta diretamente o seu potencial econômico. Em conversa com o Valor, Michael França e Daniel Duque, autores do livro “Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas”, discutem como a desigualdade não é apenas um dilema moral, mas um entrave severo ao crescimento econômico.
França, doutor em Teoria Econômica pela USP, destaca que “vivemos em um dos países mais desiguais do mundo”, o que afeta o sistema econômico. Em uma coluna publicada no jornal O Globo, a economista Ana Carla Abrão enfatiza que “uma economia que desperdiça talentos e restringe oportunidades produz menos do que poderia”. Ela afirma que a desigualdade limita mercados, reduz a produtividade e compromete a confiança necessária à prosperidade.
O Orçamento Brasileiro e seus Desafios
O Orçamento brasileiro é um reflexo dessa desigualdade. Enquanto faltam recursos para serviços públicos de qualidade para a população vulnerável, bilhões são direcionados a subsídios e benefícios tributários. França argumenta que o país paga um preço alto por não integrar a maior parte de sua população a um ciclo produtivo de qualidade.
“Milhões de talentos individuais são eliminados numa espécie de loteria do nascimento”, observa França. Ele também menciona que a desigualdade extrema é um dos principais combustíveis da criminalidade urbana, gerando custos elevados em segurança pública e limitando o ambiente de negócios.
Crescimento Econômico e Responsabilidade Fiscal
Por outro lado, Duque, doutor em Economia pela Norwegian School of Economics, critica a ideia de que existe um dilema entre crescimento econômico e redução das desigualdades. Ele argumenta que em países com desigualdades tão discrepantes como o Brasil, a diminuição dessas disparidades é um catalisador de prosperidade.
O governo Lula tem sido criticado por Duque por cometer erros e adotar medidas insuficientes para consolidar a redução das desigualdades. Ele aponta a política de subsídios a grandes empresas como problemática e defende um ajuste fiscal rigoroso.
Críticas à Gestão Fiscal e ao Bolsa Família
A economista Zeina Latif também critica a perda de focalização do Bolsa Família e a falta de integração entre União, Estados e municípios. Ela afirma que o descontrole das contas públicas compromete o ambiente econômico, atingindo principalmente a população de menor renda. “Não há política social que alcance a eficácia desejada em um ambiente macroeconômico desequilibrado”, ressalta.
Latif sugere que é necessário rever o desenho dos programas sociais e aperfeiçoar o Cadastro Único para identificar melhor as famílias vulneráveis. Além disso, ela vê a necessidade de revisar renúncias tributárias, que dificultam uma revisão mais ampla das políticas sociais.
Opinião
A discussão sobre desigualdade e crescimento econômico no Brasil é crucial e deve ser abordada com seriedade, pois o futuro econômico do país depende de um consenso sobre a necessidade de reduzir as disparidades sociais.





