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Luiz Gama provoca Unesco a reconhecer legado de luta contra racismo no Brasil

Luiz Gama provoca Unesco a reconhecer legado de luta contra racismo no Brasil

No palco, o ator Déo Garcez, intérprete do advogado e jornalista Luiz Gama (1830 – 1882), olha para o público e pausadamente exprime: “A liberdade e a igualdade não são privilégios e sim direitos de qualquer pessoa”. Ele repete. Cada pessoa da plateia no Teatro dos Bancários, em Brasília, também. E as palavras ganham ainda mais força. “Liberdade”, “igualdade”, “direitos”. As palavras viajam no tempo. Parecem simples no espetáculo Luiz Gama: uma voz pela liberdade.

Na última semana, em que a abolição oficial da escravatura completou 138 anos, em 13 de maio, uma encenação e um debate em Brasília trouxeram à tona como o legado do intelectual é vivo e ganha visibilidade em distintos caminhos. A arte teatral, por exemplo, ajuda a promover conhecimento e transformação com novas reflexões contra o preconceito que sobrevive, em máscaras diversas, pelo país, conforme argumenta o ator.

Ideias transformadoras

Para o sociólogo Jessé Souza, que esteve em Brasília para debater sobre o legado de Luiz Gama, a população deve compreender que a escravidão está entre nós antes de tudo nos símbolos e nas ideias. “As ideias são o que é mais importante no mundo. O nosso comportamento é determinado por ideias”, diz. Por isso, o ideário deixado pelo intelectual pode ser considerado uma arma de combate para todos os processos da escravidão moderna.

No primeiro censo demográfico, em 1872, foram identificadas cerca de 10 milhões de pessoas que viviam no Brasil à época. Pelo menos 15%, cerca de 1,5 milhão, eram de pessoas escravizadas. A atuação de Luiz Gama pela liberdade das pessoas mostra que o protagonismo das pressões do século 19 fez parte de um processo desencadeado pela comunidade negra.

Reconhecimento da Unesco

O legado de Luiz Gama já é identificado pela Unesco, que está em trâmite final para reconhecer oficialmente a relevância dos manuscritos históricos do abolicionista como Patrimônio Documental da Humanidade. O acervo Presença negra no Arquivo: Luiz Gama, articulador da liberdade, tem 232 documentos do Arquivo Público do Estado de São Paulo, incluindo cartas de emancipação e registros de africanos ilegalmente traficados.

Luiz Gama libertou mais de 500 pessoas escravizadas, utilizando a legislação da época, como a Lei Feijó, de 1831, e a do Ventre Livre, de 1871. Gama defendia a República como o único regime capaz de garantir a liberdade e a igualdade.

O papel da arte e da conscientização

O espetáculo recorda episódios importantes de sua luta, como o caso de um senhor de engenho que deixou no testamento que todos os seus 217 escravizados fossem libertos. Gama conseguiu libertar 130 deles. Ele acreditava que os jornais seriam armas poderosas de protesto e denúncia dos crimes contra a justiça.

O pesquisador Artur Antônio dos Santos Araújo ressalta que o papel revolucionário de Luiz Gama foi mostrar que a escravidão tinha um regime jurídico sofisticado e que ele usou esse sistema para libertação. A luta histórica de Luiz Gama deve ser lembrada como uma conquista coletiva e política da população negra.

Opinião

A história de Luiz Gama é um poderoso lembrete da importância de lutar contra injustiças e preconceitos, refletindo a necessidade de uma conscientização constante sobre a igualdade e a liberdade.