Internacional

Indonésia lidera denúncias de violações na indústria de níquel com 96 casos

Indonésia lidera denúncias de violações na indústria de níquel com 96 casos

Denúncias de violações de direitos humanos e danos ambientais ligadas às cadeias globais de minerais críticos da China estão aumentando, e a Indonésia concentra mais casos do que qualquer outro país devido à rápida expansão de sua indústria de níquel, segundo relatório divulgado pelo Business & Human Rights Resource Centre (BHRC). O estudo, que monitora denúncias relacionadas a investimentos de empresas chinesas em cadeias de suprimento de minerais essenciais, revela que a Indonésia liderou com 96 dos 326 casos identificados entre 2023 e 2025.

O relatório destaca que quase todos os casos indonésios estão ligados ao setor de níquel, que recebeu bilhões de dólares em investimentos de empresas chinesas, incluindo a fabricante de baterias CATL. Essa injeção de capital ajudou a transformar o país no maior produtor mundial do metal, amplamente utilizado em aço inoxidável e baterias para veículos elétricos.

As denúncias incluem desde condições de trabalho inseguras, com registros de acidentes fatais, até poluição em áreas de mineração e processamento nas ilhas de Sulawesi e Molucas. O episódio mais grave ocorreu em 2023, quando um forno da fundição de níquel da Indonesia Tsingshan Stainless Steel, subsidiária do grupo chinês Tsingshan, explodiu em Morowali, matando 21 pessoas.

O relatório do BHRC também aponta um aumento de casos relacionados ao lítio, outro metal-chave para baterias de veículos elétricos. A expansão da presença chinesa nas cadeias globais de minerais críticos levanta questionamentos sobre condições de trabalho e impactos ambientais. Segundo Michael Clements, diretor-executivo do BHRC, ainda existe uma “lacuna entre os compromissos assumidos pelas empresas e sua implementação prática”.

Organizações locais na Indonésia criticam a velocidade com que o governo promoveu a industrialização do níquel. Imam Shofwan, da Rede de Defesa da Mineração da Indonésia, destacou as preocupações com a proliferação de fundições que utilizam a tecnologia chinesa de lixiviação ácida de alta pressão (HPAL). Esse processo gera grandes volumes de resíduos potencialmente tóxicos, e o armazenamento inadequado pode contaminar o solo e os recursos hídricos. Pesquisadores indonésios identificaram substâncias cancerígenas em áreas próximas a depósitos de rejeitos de HPAL.

O relatório também menciona três mortes desde 2025 associadas ao rompimento de barragens de rejeitos. Ian Hiscock, pesquisador do Energy Shift Institute, alertou que, mantido o ritmo atual de expansão, o volume de rejeitos das fundições de níquel que utilizam HPAL poderá ser dez vezes maior nos próximos cinco a dez anos. “Sem armazenamento adequado, haverá mais mortes, contaminação de sistemas hídricos e destruição de ecossistemas”, afirmou.

Representantes do setor argumentam que o aumento da fiscalização levou empresas a reforçarem padrões de segurança e gestão ambiental. A Nikkei Asia procurou companhias chinesas citadas no relatório, mas não obteve resposta. Entre as empresas que enviaram comentários ao BHRC, a Lygend Resources afirmou cumprir as leis locais, a Dexin Steel disse estar comprometida com a melhoria contínua da segurança e direitos humanos, e a Zhejiang Huayou Cobalt declarou seguir padrões indonésios e internacionais.

Especialistas e ativistas, contudo, avaliam que os avanços ainda são insuficientes diante da recorrência de acidentes, do aumento de doenças respiratórias associadas à poluição e dos impactos sobre atividades como agricultura e pesca nas regiões afetadas.

Opinião

A situação da indústria de níquel na Indonésia exige atenção imediata, pois as consequências das violações de direitos humanos e danos ambientais afetam não apenas os trabalhadores, mas também o ecossistema local e a saúde da população.