O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, deve ir além da discussão sobre tarifas e sinalizar uma nova divisão de áreas de influência no mundo. É o que afirma Leonardo Trevisan, economista e professor de relações internacionais da ESPM. Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Trevisan destacou que a reunião ocorre em um momento de definições geopolíticas, podendo impactar diretamente mercados emergentes, comércio global e cadeias estratégicas.
Segundo o professor, a reunião deve colocar frente a frente as duas potências com maior capacidade de decisão sobre a reorganização da ordem global. Ele comparou o encontro à Conferência de Yalta, de 1945, quando Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética discutiram a divisão de influência após a Segunda Guerra Mundial. “Está com muito jeito de ser uma Yalta. Yalta é aquela conferência de 1945, quando a Alemanha perdeu a guerra, Estados Unidos e União Soviética ganharam, e Stalin e Roosevelt aceitaram dividir o mundo”, disse Trevisan.
A disputa é mais complexa atualmente, pois envolve um número maior de países tentando preservar espaço nas decisões globais. Nações médias como Brasil, Canadá, Indonésia, Filipinas e Japão também buscam aumentar seu peso em meio à rivalidade entre Washington e Pequim. Trevisan ressaltou que, embora as tarifas entre os dois países sejam um tema de discussão, o eixo central da conversa deve ser a disputa por poder e controle de cadeias estratégicas.
O Poder das Terras Raras
As terras raras foram citadas como um dos elementos de força da China, que controla cerca de 60% das reservas globais e domina aproximadamente 90% do processamento desses minerais, essenciais para a indústria digital. “Quando falamos dessa tecnologia, estamos falando de toda a indústria digital. Os chineses têm controle sobre isso e conseguem fazer os Estados Unidos perceberem essa força”, afirmou.
Estabilização do Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio também deve entrar na pauta, mas em segundo plano. Trevisan acredita que a China tem interesse em conter a crise, especialmente diante do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa parte relevante do gás e do petróleo globais. “A China tem pressa para que a região se estabilize, porque uma crise prolongada pode prejudicar a recuperação da economia mundial e afetar diretamente a própria China”, disse.
Desafios para Trump
Sobre as negociações envolvendo os Estados Unidos e o Irã, Trevisan avaliou que Trump não pode sair do conflito sem apresentar algum tipo de vitória política. A alta do custo de vida e a volta da inflação nos Estados Unidos aumentam a pressão sobre seu governo. “Donald Trump essencialmente não pode sair da guerra derrotado”, concluiu.
O Impacto Econômico
Na frente econômica, novos estímulos chineses podem beneficiar commodities metálicas e exportadores brasileiros. A China precisa sustentar seu crescimento e conter os efeitos de uma demanda interna ainda fraca. Em 2022, a China exportou US$ 1,2 trilhão, enquanto o Brasil vendeu cerca de US$ 300 bilhões ao exterior. Esse peso comercial explica por que a China tende a atuar para evitar que a crise internacional se espalhe.
Opinião
O encontro entre Trump e Xi Jinping pode ser um divisor de águas na geopolítica mundial, refletindo a complexidade das relações internacionais contemporâneas.





