Economia

Departamento do Tesouro dos EUA alivia mercado, mas juros longos podem subir

Departamento do Tesouro dos EUA alivia mercado, mas juros longos podem subir

A recompra de títulos de longo prazo anunciada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos trouxe alívio aos mercados nesta quarta-feira (18), mas não elimina os fatores que vêm pressionando os juros americanos de prazos mais longos. A avaliação é de Pedro Paulo Silveira, analista da Terra Investimentos.

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Silveira afirmou que o movimento ajudou a reduzir temporariamente a taxa considerada livre de risco e abriu espaço para uma recuperação de ativos mais arriscados. O problema, segundo ele, é que o desequilíbrio estrutural por trás da alta dos rendimentos continua presente. “Não foi nenhuma reversão de cenário”, afirmou.

Taxas de juros sob pressão

Para Silveira, o mercado enfrenta uma combinação de elevado endividamento público, grande necessidade de financiamento das empresas e pressão adicional provocada pelos investimentos em inteligência artificial e infraestrutura tecnológica. “Você tem grandes tomadores de poupança no mundo, que são governos e que são empresas agora. E mais: você tem uma parte significativa do mundo ressabiada em continuar financiando a dívida americana”, disse.

Questionado sobre a direção das taxas dos títulos americanos de dez e 30 anos, Silveira afirmou que há incerteza sobre a velocidade do movimento, mas vê um viés de alta. “O momento de equilíbrio no mercado de títulos indica uma tendência de alta”, afirmou. Segundo ele, o mercado pode passar por períodos de ajuste gradual, mas movimentos mais abruptos não podem ser descartados.

Concorrência por financiamento

O analista também chamou atenção para o volume de recursos demandado pelas grandes empresas de tecnologia. Segundo ele, o avanço dos investimentos em inteligência artificial e data centers ocorre ao mesmo tempo em que governos precisam captar grandes volumes no mercado. “As big techs estão fazendo dívida até não poder mais. É um nível muito grande de endividamento, elas estão emitindo muita dívida”, afirmou.

Essa concorrência por recursos tende, segundo Silveira, a pressionar o preço do dinheiro. “Com isso, a taxa de juro sobe e fica maior que a taxa de crescimento”, disse. Para Silveira, o aumento das taxas de longo prazo ocorre depois de um período em que governos conseguiram elevar fortemente o endividamento sem enfrentar o mesmo grau de pressão sobre o custo da dívida.

Impactos globais

Uma alta persistente dos juros longos americanos teria efeitos que ultrapassam o mercado dos Estados Unidos. Taxas maiores dos Treasuries aumentam a remuneração exigida pelos investidores em outros mercados e podem pressionar moedas, juros e bolsas, especialmente em economias emergentes. O dólar desvalorizou após a ação do Tesouro no mercado de títulos públicos, mas Silveira alerta que o episódio deve ser visto como um ajuste de curto prazo.

Opinião

A situação atual do mercado de títulos reflete um equilíbrio delicado que pode ser facilmente perturbado por fatores econômicos e geopolíticos, exigindo atenção constante dos investidores.