A decisão da Braskem de recorrer à recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias, equivalentes a cerca de R$ 56 bilhões, levanta questões sobre a eficácia desse mecanismo para grandes empresas brasileiras. A companhia afirmou que a medida terá caráter exclusivamente financeiro e não envolverá obrigações com fornecedores, clientes e demais parceiros comerciais.
Esse movimento ocorre em um cenário onde a recuperação extrajudicial tem ganhado popularidade entre grandes grupos empresariais, oferecendo um processo mais simples, rápido e com menor intervenção judicial. Contudo, Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper, alerta que a dimensão da estrutura financeira da Braskem levanta dúvidas sobre a viabilidade da renegociação do passivo.
Desafios financeiros da Braskem
Ao final de 2025, o endividamento total da Braskem era de aproximadamente R$ 98,4 bilhões, sendo cerca de R$ 66,1 bilhões referentes a financiamentos e debêntures, o que representa aproximadamente dois terços do passivo total da empresa. O plano anunciado foca nas obrigações financeiras quirografárias, mas deixa de fora valores significativos relacionados à operação, incluindo cerca de R$ 13,2 bilhões em dívidas com fornecedores e R$ 4,2 bilhões em arrendamentos registrados ao final de 2025.
Montoro destaca que essa divisão é crucial para entender as limitações e as oportunidades da estratégia adotada. A recuperação extrajudicial, ao se concentrar em determinadas obrigações, busca preservar as relações comerciais e evitar impactos diretos sobre fornecedores e clientes. No entanto, ele enfatiza a necessidade de avaliar se os problemas que afetam a geração de caixa da empresa estão restritos às dívidas que serão renegociadas.
Tendências e o futuro da recuperação extrajudicial
A recuperação extrajudicial pode ser vista como uma tentativa de reorganização financeira preventiva, permitindo à Braskem negociar com credores sem enfrentar os efeitos mais amplos de uma recuperação judicial. Montoro observa que a vantagem de agir preventivamente é preservar alternativas, sendo que quanto mais cedo a empresa identifica a deterioração de sua estrutura financeira, maior sua capacidade de negociação.
Esse movimento da Braskem se insere em uma tendência mais ampla observada entre empresas brasileiras em 2026, onde estruturas de capital construídas em períodos de crédito abundante estão sendo pressionadas pela elevação dos juros e desaceleração econômica. O especialista acredita que o desfecho do processo poderá definir se a recuperação extrajudicial será suficiente para restaurar o equilíbrio econômico da companhia ou se será apenas uma etapa de uma reestruturação mais abrangente.
Opinião
A situação da Braskem exemplifica os desafios enfrentados por grandes empresas em um ambiente econômico instável, ressaltando a importância de estratégias de reestruturação bem fundamentadas.





