Com a expectativa praticamente unânime de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, para 14% ao ano, o foco do mercado está menos na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) e mais na comunicação que acompanhará o anúncio do Banco Central. Para Gabriel Cecco, sócio da Valor Investimentos, o principal ponto de atenção será identificar se a autoridade monetária deixará espaço para novas reduções dos juros ao longo dos próximos meses.
Segundo Gabriel, o corte de 0,25% é praticamente unânime hoje. “Então, a gente realmente está muito mais de olho com a comunicação, se vai haver brecha para novos cortes ao longo do ano. O Boletim Focus, por exemplo, precifica mais um corte de 0,25, então com a Selic terminal em 13,75%.” Essa ata da reunião pode nos indicar se isso também está nos planos do Banco Central e não só dos agentes de mercado, afirmou.
Desaceleração da inflação e riscos externos
A recente desaceleração da inflação contribui para a decisão esperada do Copom, mas está longe de ser o único fator considerado pela autoridade monetária. “Com certeza esse alívio da inflação é um insumo importante na hora dessa tomada de decisão, além de outros vários”, disse Cecco. Entre eles, ele cita a desaceleração da atividade industrial, apontada por indicadores recentes, e riscos externos capazes de pressionar novamente os preços.
O especialista destaca que parte da queda recente da inflação está relacionada à redução dos preços do petróleo, mas alerta que esse movimento pode ser temporário. “O petróleo vem ajudando a reduzir a inflação, mas infelizmente não é através de um mercado racional de oferta e demanda. É por conta de uma canetada. Da mesma forma que baixou, amanhã os conflitos podem voltar a se desdobrar e esse petróleo voltar a subir.”
Impactos climáticos e ambiente fiscal
Outro fator monitorado pelo Banco Central é a possibilidade de impactos climáticos sobre os preços dos alimentos. Segundo Cecco, esses choques fogem do controle da política monetária, mas precisam ser considerados na definição dos juros. Ele também ressalta que a Selic, embora seja o principal instrumento de combate à inflação, não resolve sozinha o problema. “A Selic é o principal remédio para conter a inflação, mas não é o único. O ambiente fiscal é super importante e a gente tem o fiscal deteriorado. O mercado enxerga isso como um ambiente muito ruim. Esse fiscal deteriorado pressiona a inflação futura.”
Desafios do Copom e volatilidade
Na avaliação do especialista, outro desafio enfrentado pelo Copom é o intervalo entre a decisão sobre os juros e seus efeitos na economia. Por isso, o Banco Central trabalha com projeções para os próximos trimestres, e não apenas com os dados atuais. “O BC é um transatlântico, não é um jet ski. As coisas não acontecem do dia para a noite”, afirmou.
Ceccco explica que a decisão de política monetária busca influenciar a inflação futura. O Central não toma decisões olhando para a inflação de hoje. Ele olha onde a inflação deve estar no período em que os efeitos dos juros serão sentidos com mais força, explicou Gabriel. Apesar da melhora recente dos indicadores de inflação, ele avalia que ainda há incertezas relevantes no cenário econômico, o que exige cautela por parte do Copom.
Opinião
A condução da política monetária do Banco Central deve ser monitorada de perto, pois o cenário econômico ainda apresenta desafios significativos que podem impactar as decisões futuras.





