Moradores do bairro de Perus, na capital paulista, enfrentaram uma situação alarmante durante a primeira audiência pública convocada para discutir os impactos da implantação do incinerador de lixo, oficialmente denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes. A audiência, realizada em 1º de outubro, foi marcada pela exclusão de aproximadamente 500 moradores, que foram impedidos de entrar no local.
O evento, que tinha caráter consultivo e foi organizado pela prefeitura e pelo governo estadual, levantou suspeitas de que pessoas de fora da comunidade foram recrutadas para desmobilizar a resistência local ao projeto da Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), responsável pelo tratamento de resíduos de saúde. De acordo com informações apuradas pela Agência Brasil, ônibus não identificados deixaram passageiros em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, onde ocorreu a audiência, formando uma longa fila e lotando o espaço.
Conflito e Reação da Comunidade
Com a capacidade máxima do teatro do CEU atingida, muitos moradores, incluindo crianças, ficaram do lado de fora, expostos à chuva, enquanto a Guarda Civil Metropolitana (GCM) impedia a fala de vereadores presentes. A assessoria da prefeitura negou as acusações de uso de força excessiva e afirmou que a presença do público foi espontânea, respeitando a ordem de chegada.
Os moradores de Perus, que já enfrentam desafios significativos, como uma expectativa de vida média de apenas 62 anos, expressaram sua indignação. O engenheiro químico Mario Bortoto destacou que a forma como a audiência foi conduzida justifica a realização de uma audiência alternativa organizada pela comunidade. Ele argumentou que o novo incinerador é considerado ultrapassado em outros países e que sua implementação acarretaria mais problemas de saúde para uma população que já carece de atendimento médico adequado.
Histórico da Região e Implicações
Perus tem um histórico de resistência a empreendimentos semelhantes, como o aterro sanitário Bandeirantes, que esteve ativo por 28 anos e recebeu milhões de toneladas de resíduos. A região, que também enfrenta estigmas associados à Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, continua a ser alvo de propostas de projetos que não consideram as necessidades reais da população.
A CETESB, que está atualmente em fase de análise técnica do projeto, afirmou que todas as colocações feitas na audiência serão consideradas no processo de licenciamento. Em resposta, a Loga e a prefeitura destacaram que as UREs são instalações modernas e não devem ser confundidas com incineradores antigos, assegurando que não há riscos à saúde da população.
Opinião
A exclusão de moradores de Perus da audiência pública levanta questões sérias sobre a transparência e a real participação da comunidade em decisões que afetam diretamente sua saúde e qualidade de vida.





