A tarifa dinâmica se consolidou como padrão nos aplicativos de mobilidade urbana na última década, mas sua função original mudou. O que antes servia para equilibrar a oferta de motoristas com a demanda de passageiros, hoje atua como uma ferramenta de otimização de margem de lucro para as plataformas.
A análise é do country manager da inDrive no Brasil, Stefano Mazzaferro. Em entrevista ao Podcast Canaltech, o executivo explica que o mecanismo sofreu alterações significativas e opera com falta de transparência na formação dos preços. Segundo Mazzaferro, a equação matemática direta para incentivar o deslocamento de motoristas para áreas de alta demanda deu lugar a algoritmos complexos.
“Tornou-se uma caixa preta. É um algoritmo muito baseado em IA e machine learning que opera de forma completamente automatizada”, afirma Mazzaferro. “As empresas na indústria estão utilizando dessa ferramenta não só para reequilibrar o marketplace, mas também para otimizar a própria receita”.
Essa mudança de diretriz técnica resulta em um descompasso percebido pelo usuário final. Muitas vezes, o aumento do preço pago pelo passageiro não é repassado proporcionalmente ao motorista, gerando atrito nas duas pontas do serviço. O executivo aponta que essa imprevisibilidade — tanto no valor da corrida quanto no tempo de espera — é o principal fator de insatisfação atual no mercado.
Subordinação Algorítmica
A discussão sobre a precificação automática esbarra no conceito de gestão do trabalho. Em diversas jurisdições, incluindo diretivas da União Europeia, cresce o debate sobre a subordinação algorítmica. Neste cenário, o algoritmo assume o papel de gestor, definindo tarefas, remuneração e avaliando a performance do trabalhador sem intervenção humana direta.
No Brasil, o debate sobre a regulação dos aplicativos segue aquecido, buscando um equilíbrio entre a flexibilidade do trabalho e a proteção social. Mazzaferro destaca que a tecnologia de inteligência artificial é irreversível no setor, mas que o modelo de negócio precisa oferecer opções.
A inDrive, por exemplo, opera com um sistema de negociação direta, onde o passageiro sugere um valor e o motorista pode aceitar ou contrapropor. “A tecnologia da inDrive está baseada na relação humana natural para fazer que as pessoas tenham liberdade de escolha. A gente controla muito pouco da experiência”, finaliza o executivo.
Opinião
A análise de Mazzaferro destaca a necessidade urgente de uma regulação eficaz que proteja tanto motoristas quanto passageiros em um cenário de crescente dependência de algoritmos.
