Casos recentes de violência extrema, amplamente divulgados pela mídia, reacendem uma pergunta antiga e inquietante: de onde vem o mal? A origem do mal é um tema discutido por diferentes áreas do conhecimento, da religião à filosofia, da sociologia à psicologia. Apesar dos avanços teóricos, esse questionamento permanece como um dos grandes enigmas da condição humana.
Ao longo da história, há uma tendência recorrente em compreender o mal como algo inerente ao humano, inscrito nas construções sociais e nas relações que estabelecemos. Uma das primeiras dificuldades está em defini-lo. O mal é inato ou adquirido? O ser humano nasce bom e é corrompido pela sociedade ou nasce com tendências violentas que precisam ser contidas por leis e normas?
Reflexões sobre o mal
Para Hobbes, o homem carrega uma inclinação natural à violência, pois vive em permanente desconfiança. Já para Santo Agostinho, o mal não é uma substância, mas a ausência do bem. São Tomás de Aquino aprofunda essa ideia ao entendê-lo como uma falha do ser. Nietzsche rompe com a moral cristã ao afirmar que bem e mal são construções históricas moldadas pelas relações de poder. Maquiavel, por sua vez, trata o mal de forma pragmática, como instrumento possível para a manutenção do poder. Foucault amplia essa leitura ao mostrar que crime, loucura e perversidade são categorias produzidas por discursos e instituições.
No século XX, Hannah Arendt introduz o conceito de banalidade do mal ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann. Ela não encontrou um monstro, mas um homem comum, incapaz de refletir criticamente sobre seus atos. O mal, nesse contexto, não nasce apenas da perversidade consciente, mas da obediência cega e da diluição da responsabilidade individual.
O mal na sociedade contemporânea
A sociedade contemporânea, marcada pelo enfraquecimento do pensamento crítico e pela polarização ideológica, cria um terreno fértil para a banalização da violência. O outro passa a ser desumanizado e visto como ameaça. Assim, o mal deixa de ser exceção e se apresenta como resposta legitimada. A psicanálise reconhece uma pulsão agressiva inerente ao ser humano, mas aponta que cabe às mediações sociais transformá-la em algo simbolizável. Quando essas instâncias falham, a violência emerge de forma crua.
O aspecto mais inquietante é admitir que o mal não está apenas no outro. Ele pode ser cometido por pessoas comuns, movidas pelo medo, pela ideologia ou pela sobrevivência, como ocorreu no Holocausto. Ao projetarmos o mal exclusivamente nos sujeitos que consideramos malignos ou que taxamos como “loucos”, criamos uma distância psicológica que nos permite sustentar a fantasia de nossa própria pureza, evitando o confronto com a universalidade maldade inerente à condição humana.
Reflexão e vigilância ética
Diante disso, talvez a reflexão mais urgente seja reconhecer que o mal não é algo externo, distante ou restrito a figuras excepcionais. Ele habita também o cotidiano, os pequenos gestos, as omissões e as escolhas aparentemente banais. Somente ao reconhecer essa dimensão humana da maldade é possível construir limites, fortalecer o pensamento crítico e impedir que a violência se naturalize. Estar atento ao mal em nós mesmos exige vigilância ética permanente, capacidade de autocrítica e disposição para enfrentar a própria sombra.
Opinião
A reflexão sobre a origem do mal é essencial para entendermos nossas ações e a sociedade em que vivemos, exigindo um compromisso ético contínuo.
