Política

CAAF e governo Lula retomam busca por desaparecidos após 62 anos do golpe militar

CAAF e governo Lula retomam busca por desaparecidos após 62 anos do golpe militar

Há exatos 62 anos, um golpe militar instaurou no Brasil um regime autoritário que durou 21 anos, conhecido como a ditadura militar (1964-1985). Este período foi marcado pela repressão política, tortura e desaparecimento de opositores, muitos dos quais ainda têm seus corpos não identificados. Em meio a esse contexto, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) enfrenta desafios significativos na busca e identificação de desaparecidos forçados.

Desafios na Identificação de Desaparecidos

O coordenador do CAAF, Edson Teles, destaca que a principal dificuldade reside na falta de um programa de estado permanente para a busca e identificação de desaparecidos. “Não há um programa nacional, um programa fixo, uma institucionalidade para busca de desaparecidos e trabalho forense de identificação humana”, afirmou Teles. Em outros países, políticas permanentes de busca têm sido implementadas, garantindo a continuidade independentemente das mudanças de governo.

Atualmente, o CAAF trabalha na identificação de 1.049 caixas com ossadas humanas encontradas em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na capital paulista. Entre os sepultados, encontram-se desaparecidos políticos da ditadura. Até agora, foram identificados Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano em 2018, e Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva em 2025.

Impactos da Extinção do Grupo de Trabalho

A extinção do Grupo de Trabalho Perus em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, dificultou a continuidade das pesquisas e a obtenção de recursos. “O que o Bolsonaro fez foi extinguir esse grupo de trabalho, o que dificultou qualquer repasse e financiamento”, relatou Teles. Com a nova gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, um novo Acordo de Cooperação Técnica foi firmado em 2024, visando retomar as análises das ossadas.

“Já em 2023, o atual governo Lula retomou os diálogos e pode colocar no orçamento para 2024 a retomada do pagamento completo, pleno, do acordo para o trabalho de identificação”, explicou Teles. No entanto, ele alerta que a continuidade dos trabalhos depende da manutenção de recursos financeiros, que podem ser afetados por mudanças políticas.

Violência de Estado e Desaparecimentos Atuais

O coordenador do CAAF ressalta a necessidade urgente de uma política de estado para a busca de corpos desaparecidos, incluindo os que continuam a desaparecer em tempos democráticos. “É fundamental saber que uma máquina de desaparecimento foi criada a partir do Estado brasileiro nos anos 70”, enfatizou.

Além disso, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80 mil pessoas desaparecem anualmente no Brasil, incluindo casos de desaparecimento forçado, que ainda são uma realidade preocupante, seja por ações de agentes do Estado ou do crime organizado.

Opinião

A busca por justiça e memória em relação aos desaparecidos da ditadura militar é uma questão que deve ser abordada com seriedade e compromisso por parte do Estado, para evitar que a história se repita e que novas vítimas sejam esquecidas.