Em meio à expectativa de uma safra histórica, os produtores de maçã no Brasil enfrentam sérias dificuldades para contratar mão de obra para o período de colheita, que ocorre entre o final de janeiro e abril. A Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM) aponta que um dos principais fatores para essa escassez é o receio dos beneficiários do Bolsa Família de perderem o acesso ao benefício ao aceitarem uma função temporária.
O diretor-executivo da ABPM, Moisés Lopes de Albuquerque, explica que, devido à natureza temporária do trabalho — que dura em média 90 dias —, muitos trabalhadores têm hesitado em se candidatar. “Dentro da política atual, eles estão certos”, afirma Albuquerque, ressaltando a insegurança que os beneficiários sentem em relação à manutenção do auxílio.
Impactos da falta de mão de obra
O Brasil possui cerca de 35 mil hectares dedicados ao cultivo de maçã, com uma demanda estimada de 70 mil trabalhadores para a colheita. Os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram 95% da produção nacional, sendo os principais polos Vacaria (RS), Fraiburgo (SC) e São Joaquim (SC).
Em Santa Catarina, 201.518 famílias são beneficiárias do Bolsa Família, enquanto no Rio Grande do Sul, esse número chega a 519.749. A dificuldade de contratação também é sentida em outras áreas da fruticultura, levando representantes do setor a se reunirem com autoridades do governo federal para buscar soluções.
Legislação em debate
Uma proposta de mudança está sendo discutida no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 715/2023, conhecido como PL dos Safristas, visa garantir que a remuneração recebida em contratos de safra não afete a elegibilidade para benefícios sociais. A proposta, que já foi aprovada na Câmara e no Senado, aguarda análise final por parte dos deputados.
O salário médio de um trabalhador na colheita de maçã é de aproximadamente R$ 3 mil, o que pode elevar a renda de uma família com três pessoas para cerca de R$ 3.654 no período de colheita, superando o limite de R$ 218 por integrante para acesso ao Bolsa Família.
Reação do governo
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirmou que o cálculo da renda no Cadastro Único já considera a variação de renda, evitando que famílias com ganhos sazonais sejam excluídas do programa. No entanto, a atual Regra de Proteção não abrange todos os trabalhadores temporários, deixando muitos em uma situação de incerteza.
Opinião
A situação evidencia a complexidade das políticas sociais e sua interação com o mercado de trabalho, exigindo soluções que atendam tanto às necessidades dos trabalhadores quanto aos desafios do setor produtivo.
Data da matéria: 24/03/2026





