Economia

Investidores Estrangeiros Aumentam Risco em Juros e Locais Temem Colapso

Investidores Estrangeiros Aumentam Risco em Juros e Locais Temem Colapso

Enquanto a surpresa eleitoral provocou uma redução de risco violenta por parte dos participantes locais do mercado de juros, a percepção majoritária dos agentes é de que, por ora, o investidor estrangeiro pouco reduziu sua exposição e se mantém posicionado para uma queda das taxas no Brasil. Se, por um lado, esse comportamento ajuda a evitar uma sangria ainda maior dos ativos locais, por outro, cresce a leitura de maior fragilidade técnica do mercado, já que, caso os “gringos” desejem encerrar suas posições, o investidor doméstico teria capacidade bastante limitada de absorver o risco.

Desde o início de outubro, os investidores estrangeiros acumularam um saldo de aplicações em juros equivalente a cerca de R$ 27,2 milhões em DV01, medida de quanto o valor das posições varia diante de uma oscilação de 0,01 ponto percentual nas taxas. Na ponta oposta, fundos e bancos locais acumularam um saldo de operações na direção de alta dos juros de magnitude semelhante, o que pode refletir tanto o encerramento de aplicações quanto a montagem de posições tomadas.

O movimento de aplicação dos estrangeiros voltou a ganhar força após a eleição. Entre o dia 26 e o último dado disponível, o saldo acumulado passou de aproximadamente R$ 20 milhões para R$ 27,2 milhões em DV01. Na visão de um profissional que trabalha em um dos principais hedge funds globais, o aspecto técnico do mercado preocupa, já que o investidor estrangeiro ainda permanece muito aplicado nos juros, mas com a convicção abalada. “Eu acho que o ‘gringo’ ainda está com muito risco alocado e vai procurar diminuir sempre que tiver uma janela”, resume.

Segundo essa fonte, é verdade que o investidor estrangeiro parece menos preocupado do que o local com as questões fiscais. No entanto, após as perdas expressivas nos portfólios registradas depois do segundo turno das eleições, a paciência dos estrangeiros também já se mostra menor. “O populismo foi muito grande. Além disso, o cenário externo está mais difícil”, afirma.

A preocupação principal, assim, passou a ser a possibilidade de o estrangeiro decidir diminuir suas posições no Brasil, seja por um evento externo ou por alguma notícia ligada às perspectivas fiscais do país. “O gringo não reduziu nada com a eleição e o local vai ter muita dificuldade de absorver se o gringo quiser reduzir”, afirma o profissional da tesouraria de uma instituição local.

O trader de uma grande gestora do mercado doméstico concorda com a avaliação. “Se o gringo desistir, acabou”, aponta. Ele explica que, como muitos players locais acabaram sendo forçados a encerrar suas posições após as perdas recentes, há limitações impostas pelas instituições a seus gestores para retomar a alocação de risco. “O local não tem nenhuma condição de absorver risco extra”, destaca.

Outro player nota que, a despeito da urgência do mercado, o governo ainda não emitiu nenhuma sinalização do ponto de vista fiscal ao longo da semana que passou. “Se o estrangeiro reduzir, o Tesouro vai ter que intervir de novo”, afirma.

Relatos de um almoço organizado por uma instituição com 16 gestores de grandes casas locais apontam que há um temor grande de que a economia perca fôlego justamente quando os investidores estão perdendo a confiança na disposição do governo de enfrentar suas vulnerabilidades fiscais. “Essa combinação é particularmente perigosa”, resume um participante do evento.

Segundo esse interlocutor, o cenário implicaria uma abertura adicional de 0,5 ponto percentual na curva de DI e um dólar ao redor de R$ 5,70. “Curiosamente, quando a conversa se voltou para os níveis que poderiam finalmente atrair os investidores de volta a posições otimistas nos ativos brasileiros, os números foram: taxas acima de 16% na curva de juros e dólar em algum ponto próximo de R$ 6,00”, nota.

Opinião

A situação do mercado de juros no Brasil exige atenção redobrada, pois a fragilidade técnica pode levar a consequências sérias se não houver uma resposta adequada do governo.