Política

Comissão Global de Políticas sobre Drogas denuncia encarceramento de crianças no Brasil

Comissão Global de Políticas sobre Drogas denuncia encarceramento de crianças no Brasil

Um relatório da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, divulgado em 9 de outubro de 2023, destaca o impacto devastador das políticas de combate às drogas sobre crianças e adolescentes. Segundo o documento, leis punitivas frequentemente resultam na prisão e em condições adversas para esses jovens.

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1 milhão de crianças e adolescentes são mantidos sob custódia policial anualmente, enquanto 410 mil estão encarcerados em prisões e centros de detenção. No Brasil, 27% dos cerca de 12 mil adolescentes que cumprem medidas socioeducativas estão encarcerados por tráfico de drogas, um aumento de 24% em 2020 para 27% em 2023.

Recomendações para mudança

O relatório, que se baseou em consultas com 150 pessoas em 47 países, propõe reformas urgentes nas políticas relacionadas ao uso de drogas. As recomendações incluem a desjudicialização de casos de uso e posse de drogas, o que implica em substituir a privação de liberdade por medidas de justiça restaurativa e respostas comunitárias.

Além disso, o documento pede acesso equitativo a medicamentos essenciais e serviços de saúde adaptados às necessidades de crianças e adolescentes. A Comissão também enfatiza que crianças recrutadas por redes de drogas devem ser reconhecidas como vítimas e não como criminosos.

Impactos das políticas punitivas

Segundo Juan Manuel Santos, membro da Comissão e ex-presidente da Colômbia, a proteção das crianças é uma responsabilidade fundamental dos governos. Ele critica as políticas punitivas que, embora justificadas como necessárias para proteger os jovens, têm mostrado resultados preocupantes.

O juiz Eduardo Melo, do Tribunal de Justiça de São Paulo, alerta que tratar crianças como jovens infratores leva à estigmatização e contribui para padrões de comportamento indesejável. Já João Barbosa, da Youth Rise, afirma que a política de drogas impacta negativamente crianças e adolescentes, mesmo aqueles que não estão diretamente envolvidos com o uso ou comércio de substâncias.

Reação do governo brasileiro

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) respondeu às recomendações, afirmando que as diretrizes dialogam com a abordagem da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos. A Senad ressaltou a importância de políticas públicas que atuem antes que crianças sejam inseridas em situações de violência e recrutamento pelo crime organizado.

A secretaria também mencionou programas como o Cria – Prevenção e Cidadania e a Rede de Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social (Cais) que visam facilitar o acesso a serviços essenciais para jovens em situação de vulnerabilidade.

Opinião

As políticas de combate às drogas precisam ser repensadas para priorizar a proteção e o bem-estar de crianças e adolescentes, reconhecendo-os como sujeitos de direitos e não como criminosos.