Mensagens identificadas pela Polícia Federal (PF) revelam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do liquidado Banco Master, repassou pedidos atribuídos ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para incluir informações em reportagens de interesse do magistrado. As mensagens foram extraídas de um dos celulares de Vorcaro apreendidos pela PF.
Os diálogos estavam em sigilo, mas foram tornados públicos nesta terça-feira (1º) por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo. Em uma conversa de 26 de abril de 2024, Vorcaro escreveu para um contato salvo como “Geraldo Brazil Journal” que Moraes havia solicitado a inclusão no texto da informação de que “os 3 ministros do STF se reuniram privativamente com o ex-primeiro-ministro”.
Reunião com Tony Blair e o Fórum Jurídico
Segundo Vorcaro, o ministro havia solicitado acrescentar que Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes se reuniram com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair antes de um evento organizado pelo ex-banqueiro em Londres, Inglaterra. Em abril daquele ano, ocorreu o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, que reuniu ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), além de integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Toffoli, Gilmar Mendes e Moraes participaram como palestrantes.
A informação sobre o encontro com Blair foi incluída em reportagem publicada pelo Brazil Journal no mesmo dia, intitulada “Uma hora com Tony Blair: lições de liderança e ‘quem grita mais alto’”.
Intermediação de Fábio Faria
Em outra ocasião, as mensagens mostram Vorcaro recorrendo a um terceiro para verificar com Moraes a possibilidade de alterar uma matéria jornalística. O interlocutor era Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro (PL). Segundo a PF, foi Faria quem compartilhou com Vorcaro, em 26 de dezembro de 2023, os contatos salvos como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”, todos com o mesmo número de telefone.
Em 25 de abril de 2024, Vorcaro encaminhou, às 16h40, a Faria um link de reportagem do Brazil Journal intitulada “Moraes fala sobre regular as Big Techs — e os riscos da IA”, publicada no mesmo dia, sobre a participação do ministro no evento em Londres. Na mensagem, o empresário pediu que o ex-ministro verificasse com Moraes se ele gostaria de alterar ou acrescentar alguma informação ao texto.
“Só manda pra ele. Veja se ele quer que altere algo ou acrescente”, escreveu o ex-banqueiro. Em resposta, Faria encaminhou uma mensagem atribuída a Moraes, na qual o ministro dizia que a sessão havia terminado e perguntava quando começaria o jantar.
Pressão para alterações rápidas
Diante da demora, Vorcaro insistiu para que Faria pedisse a Moraes que verificasse a reportagem imediatamente. “Fala para ele olhar agora”, escreveu. Em seguida, afirmou ser “importante ele [Moraes] alterar o que quer rápido”. “Temos que usar o Brazil Journal para conscientizar todos não só do evento como dos temas”, acrescentou Vorcaro.
Às 17h13, cerca de meia hora depois do envio do link da reportagem, Faria encaminhou uma mensagem atribuída a Moraes: “Está bom. Pode liberar”. Procurado pelo Valor, Fábio Faria afirmou que “sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo” e que “não se reuniu em nenhum momento com a banca e sequer tomou conhecimento dos valores contratados entre as partes”.
Opinião
O caso revela a complexa relação entre poder político e a mídia, levantando questões sobre a ética na comunicação e a influência de figuras públicas nas reportagens.





