Empresas que demitiram funcionários apostando na inteligência artificial começam a recontratar profissionais para funções semelhantes. Segundo reportagem do site The Next Web, a consultoria Forrester estima que 55% dos empregadores se arrependem de ter cortado equipes por causa da IA e prevê que metade das demissões atribuídas à tecnologia será revertida.
A reversão, porém, não significa retorno às condições anteriores. De acordo com a Forrester, essas vagas voltam a ser preenchidas no exterior ou com salários significativamente menores, o que transfere o custo do ajuste para o trabalhador.
O fenômeno da recontratação
O fenômeno indica uma diferença entre automatizar parte do trabalho e eliminar por completo a necessidade de mão de obra humana. Levantamento da consultoria Robert Half, citado pela Forbes, mostra que mais de três em cada dez gestores de contratação nos Estados Unidos que eliminaram posições após a adoção de IA precisaram recriar essas vagas ou funções muito parecidas.
A montadora Ford recontratou mais de 300 ex-funcionários em junho, após constatar que a qualidade da produção não se sustentava apenas com a automação. O Commonwealth Bank of Australia cortou cerca de 45 posições de atendimento ao instalar um assistente de voz baseado em IA, reverteu a decisão, pediu desculpas aos clientes e ofereceu as vagas de volta aos ex-funcionários quando o volume de chamados voltou a crescer.
Desafios e críticas ao uso da IA
Já a fintech Klarna chegou a afirmar que sua IA fazia o trabalho de 700 atendentes humanos, mas o próprio presidente da empresa reconheceu queda na qualidade do suporte e a necessidade de reconstruir a equipe. A Gartner projeta que, até 2027, metade das empresas que reduziram equipes de atendimento ao cliente por causa da IA precisará recontratar funcionários para tarefas semelhantes, ainda que sob cargos com nomes diferentes.
Parte da atribuição das demissões à inteligência artificial também é questionada. Um levantamento da Gartner mostra que menos de 1% das demissões registradas em 2025 estavam diretamente ligadas a ganhos de produtividade obtidos com IA. A vice-presidente da consultoria, Alexandra Earl, afirma que empresas têm atribuído cortes de pessoal à adoção da tecnologia mesmo quando fatores financeiros e estratégicos pesam mais na decisão.
Impacto nas relações de trabalho
A prática, chamada de “AI washing”, consiste em superestimar o papel da IA para justificar reestruturações que teriam outras causas. Segundo a consultoria, esse tipo de comunicação compromete a confiança dos funcionários e pode mascarar os reais motivos por trás dos cortes.
Para o trabalhador, a recontratação não garante volta ao cargo, ao salário ou às condições anteriores. Rodadas sucessivas de corte e recontratação também afetam a confiança na empresa, aponta a reportagem do The Next Web.
Diretivas da UE e o futuro do trabalho
Na União Europeia, uma diretiva que entra em vigor até janeiro de 2028 vai exigir consulta prévia aos trabalhadores antes de decisões que afetem seus empregos, com multas calculadas sobre o faturamento das empresas em caso de descumprimento. Os dados citados nesta reportagem refletem pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Europa. Não há, até o momento, levantamentos equivalentes sobre o cenário brasileiro.
Opinião
As recontratações mostram um cenário complexo em que a tecnologia deve ser aliada ao fator humano, refletindo a necessidade de um equilíbrio nas decisões empresariais.





