Santa Catarina

Conselho Guató lamenta morte de Vicente Manoel, último falante da língua Guató

Conselho Guató lamenta morte de Vicente Manoel, último falante da língua Guató

Vicente Manoel da Silva, reconhecido como o último falante nativo da língua Guató, faleceu aos 81 anos na região da Serra do Amolar/Morro Caracará. O falecimento ocorreu em sua residência, onde foi encontrado desacordado por moradores da comunidade. Seu Vicente, como era conhecido, vivia em uma área remota do Pantanal, distante mais de seis horas de barco a partir de Corumbá, às margens do rio São Lourenço.

Nascido em 30 de maio de 1945, Vicente Manoel era um símbolo de resistência cultural e um importante representante da etnia Guató, que já foi declarada extinta entre as décadas de 1950 e 1960. A etnia, conhecida como povo canoeiro, foi referenciada em documentos desde o século XVI. O preconceito e a violência enfrentados levaram muitos Guató a não se declararem, mas o reconhecimento de sua cultura começou a ressurgir no final da década de 1970.

Na manhã de terça-feira (4), ao perceberem a ausência de Vicente em suas atividades de pesca, moradores da comunidade foram até sua casa e o encontraram desacordado. Os Bombeiros de Mato Grosso do Sul foram acionados, mas ele já havia falecido. O Conselho de Lideranças do Povo Guató divulgou uma nota de pesar, destacando a importância de Vicente como uma “verdadeira biblioteca de saberes sobre a história, a cultura e a língua do povo Guató”.

O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) também lamentou a perda, ressaltando que, apesar de sua grandiosidade cultural, Vicente sempre viveu de forma simples e conectada ao Pantanal, utilizando ferramentas tradicionais para pesca e música.

Seu legado inclui o ensino da língua Guató para linguistas e professores nas aldeias próximas, buscando a preservação dessa cultura. Em 2018, Vicente participou das gravações do filme ‘Ruivaldo, O Homem que Salvou a Terra’, onde compartilhou seus conhecimentos sobre a língua e a fauna pantaneira.

Até 2022, Vicente não tinha acesso à energia elétrica, vivendo de forma autossuficiente em um local isolado. Uma canoa que pertenceu a ele está exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, em Corumbá.

O sepultamento de Vicente está previsto para 5 de agosto, mas ainda não há confirmação sobre o traslado do corpo para a cidade. O IHP informou que a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) planeja levar uma urna funerária para a região onde ele viveu.

Opinião

A morte de Vicente Manoel da Silva representa uma grande perda para a cultura Guató e para a preservação da língua nativa, ressaltando a importância de iniciativas que garantam a continuidade de sua herança cultural.