O Japão recuperou elementos de terras raras essenciais para a fabricação de semicondutores, veículos elétricos e equipamentos de defesa em um teste de perfuração em águas profundas, representando um avanço significativo na tentativa do país de reduzir a dependência de cadeias de suprimentos dominadas pela China.
Uma expedição de um mês, realizada próximo a Minamitorishima, uma remota ilha japonesa no Oceano Pacífico, resultou na extração de cerca de 50 toneladas de lama a uma profundidade de 6.000 metros. A análise do material confirmou a presença de elementos como ítio, gadolínio, disprósio e neodímio, de acordo com informações divulgadas pelo governo japonês e as organizações envolvidas no projeto.
Próximos passos e planejamento
Com base nos resultados do teste, o Gabinete do Governo e a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre planejam realizar uma operação de maior escala em fevereiro na mesma região. O objetivo será testar toda a cadeia de produção — da extração e separação ao refino — em escala industrial e avaliar a viabilidade de uma produção doméstica de terras raras. Uma decisão sobre a viabilidade econômica da exploração comercial está prevista para março de 2028.
Impacto do domínio chinês
Esse projeto faz parte de uma estratégia mais ampla do Japão, iniciada há cerca de uma década, para fortalecer a resiliência de sua cadeia de suprimentos e reduzir a exposição à China, que responde por cerca de 70% da produção mundial de terras raras. A posição dominante de Pequim já foi utilizada em momentos de tensão comercial e geopolítica, impactando diretamente o Japão.
Desde que a China impôs controles de exportação sobre algumas terras raras em abril de 2025, os preços de elementos como disprósio e térbio dispararam. A australiana Lynas, uma das poucas empresas fora da China atuando na extração e refino desses materiais, elevou recentemente em US$ 80 milhões a previsão de custo de uma nova unidade na Malásia, em parte devido às restrições chinesas.
Reservas significativas
A Agência Internacional de Energia alertou que a aplicação integral das restrições chinesas poderia colocar em risco US$ 6,5 trilhões em produção industrial fora do país, afetando setores como automóveis, eletrônicos, defesa e transporte. O Japão, um dos primeiros países a sentir o impacto do domínio chinês sobre a cadeia de terras raras, tem diversificado fornecedores e criado estoques estratégicos desde 2010, reduzindo sua vulnerabilidade.
Estima-se que a Zona Econômica Exclusiva do Japão contenha grandes depósitos de lama e rochas do fundo do mar ricos em terras raras, com a região próxima a Minamitorishima possuindo reservas estimadas em 16 milhões de toneladas, o que a tornaria a terceira maior base de recursos do mundo.
Opinião
A recuperação de terras raras pelo Japão pode ser um passo decisivo para a autonomia do país em relação à China, mas a viabilidade econômica dessa exploração ainda precisa ser cuidadosamente avaliada.





