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José Santana denuncia: crucificação de Jesus expõe conluio entre poder e fé

José Santana denuncia: crucificação de Jesus expõe conluio entre poder e fé

A execução de Jesus Cristo expõe o conluio entre poder político e religião quando a verdade ameaça estruturas de controle. Da Roma de Pôncio Pilatos aos sistemas contemporâneos, a história se repete: a fé é instrumentalizada, a consciência é reprimida e a verdade continua sendo o maior risco ao poder.

Na última sexta-feira, o Ocidente relembrou a crucificação de Jesus e, dois dias depois, celebrou a Páscoa. No entanto, entre símbolos comerciais e tradições esvaziadas, o sentido original permanece obscurecido: Jesus não morreu por acaso, nem por erro judicial. Ele foi condenado. Ao contrário de leituras superficiais, não se tratava de um simples agitador. Sua execução, sob autoridade romana, respondia a um padrão claro: a crucificação era instrumento de eliminação de ameaças à ordem. E Jesus se tornou uma ameaça, não por violência, mas por verdade.

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). A afirmação não é retórica; é ruptura. O verbo conhecer rompe o tempo, projeta-se como convocação permanente à consciência. E consciência é perigosa para qualquer sistema que dependa da ignorância para sobreviver. Não por acaso, a advertência ecoa: “o meu povo perece por falta de conhecimento” (Oséias 4:6). A ignorância não é apenas ausência, é instrumento. Mantém, sustenta e legitima estruturas de dominação.

Ao ordenar “não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Êxodo 20:7), o texto não trata apenas de linguagem, mas de substância. O “vão” é o vazio, o inerte, o discurso sem prática. Invocar Deus sem compromisso com justiça é transformar fé em ferramenta de manipulação. Jesus foi além. Ao afirmar “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), delimitou o poder político e libertou a consciência de sua captura institucional.

Ao denunciar lideranças religiosas, comparando-as à astúcia de “raposas” (Lucas 13:32), expôs o uso da fé como mecanismo de controle. E estabeleceu um critério objetivo de fé: “tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive doente e preso e fostes me visitar” (Mateus 25:35-36). Aqui não há teologia abstrata. Há prática. Há responsabilidade. Há verdade aplicada. Esse conjunto de posições o colocou em confronto direto com estruturas religiosas, como os fariseus e saduceus, e com o poder político romano. O resultado foi previsível: quando a verdade ameaça o sistema, o sistema reage.

No Brasil contemporâneo, essa lógica se projeta na distância entre a norma e a realidade. A própria Constituição Federal, ao assegurar direitos fundamentais e sociais, revela um paradoxo: muitos desses direitos permanecem sem efetividade plena. É o caso do Artigo 6º, que estabelece como direitos sociais a educação, a saúde, a moradia, o transporte e o trabalho digno – garantias que, na prática, ainda não alcançam todos os cidadãos.

Resgatar seu significado exige mais do que devoção em homenagem ao Coelho e ao ovo que nada tem haver com os princípios da Cruz. Exige coerência. Porque a verdade que liberta continua sendo, ainda, a verdade que incomoda.

Opinião

A reflexão sobre a crucificação de Jesus nos leva a questionar como a verdade é tratada em nossa sociedade e a importância de lutar por direitos que ainda estão distantes da realidade de muitos.