A Inteligência Artificial pode transformar a reciclagem de lixo eletrônico em uma atividade mais rápida, segura e lucrativa, por meio da automação do processo de desmontagem de aparelhos. Segundo o doutor em engenharia e especialista em robótica José Francisco Saenz, em entrevista ao portal Terra, já é possível treinar robôs para separar componentes e reaproveitar materiais sem expor trabalhadores a substâncias tóxicas, como mercúrio e chumbo.
A promessa surge em meio às preocupações ambientais provocadas pela expansão da própria IA. Os data centers que sustentam essa tecnologia consomem grandes volumes de água e eletricidade, dependem de minerais e elementos raros extraídos de forma pouco sustentável e contribuem para o aumento das emissões de gases de efeito estufa.
Desafios e Iniciativas
Além disso, a popularização de dispositivos tecnológicos impulsiona a geração de lixo eletrônico, um dos resíduos mais difíceis de reciclar. De acordo com o monitor global de lixo eletrônico, Global E-waste Monitor 2024, da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil está à frente de outros países da América do Sul na produção desses resíduos, com 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico produzido, representando uma perda de bilhões de dólares em recursos naturais. E o pior é que apenas 3% do montante desse material é reciclado no país.
Entretanto, existem iniciativas que tentam encarar esse desafio, como o projeto Circoola Brasil, no Rio de Janeiro. O projeto carioca conta com a logística circular, que foca no reúso, no reparo e na reciclagem de resíduos eletrônicos em vez do descarte desses materiais e utiliza inteligência artificial para dar nova finalidade aos produtos.
O Tesouro Escondido do Lixo Eletrônico
Produtos eletrônicos, como computadores, cabos e celulares, são coletados na casa das pessoas, e o projeto, com o uso da tecnologia, identifica o tipo de material, categoriza os resíduos, organiza o trajeto e os destina a recicladores certificados. Por meio dessa iniciativa, a Circoola Brasil viabiliza o desmonte e a reutilização desses materiais com mais segurança e maior aproveitamento, ajudando a indústria da reciclagem a ser mais lucrativa e a utilizar melhor os recursos naturais.
Segundo a ONU, calcula-se que cerca de US$ 62 bilhões em recursos naturais sejam descartados como lixo eletrônico no mundo. Muitos desses materiais eletrônicos contêm metais raros e preciosos, como ouro, prata, cobalto, lítio, manganês e níquel.
O Futuro da Reciclagem
Para se ter uma ideia, um iPhone, por exemplo, contém ouro, prata, paládio e menos de um miligrama de platina. Além deles, são encontrados nesses celulares metais comuns, mas também significativos como o alumínio e o cobre. Vale destacar que todos esses elementos estão presentes em pequenas quantidades dentro dos smartphones.
Com mais de 5,78 bilhões de usuários únicos de telefones no mundo, estima-se que uma tonelada de smartphones descartados renda mais ouro que uma tonelada de minério bruto. Contudo, muito pouco desse material é aproveitado.
Opinião
As inovações trazidas por projetos como o Circoola Brasil e o trabalho de José Francisco Saenz podem ser a chave para um futuro mais sustentável, onde a reciclagem de lixo eletrônico não só se torna mais eficiente, mas também lucrativa.
